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Já passou da hora do adeus




Não sobrou quase nada, o amargor ficou nas últimas palavras. Já passamos da hora do adeus, a nossa história ficou para trás, como a estrada no retrovisor. Como nossa música na nossa lembrança. Todos os perdões foram dados e os abraços trocados.
É triste quando é definitivo, mas é mais triste carregar o vazio. Eu não irei te pedir nada, eu não cantarei nossa canção, eu não escreverei nem um verso novo. Já é hora de irmos. Por isso que você já foi.
Eu poderia contar de mil formas a nossa história, mas nenhuma seria mais bonita do que nas minhas lembranças. E por isso eu não vou contá-la. E por isso eu vou apenas seguir meu caminho sem olhar para trás.
E peço que se sentir saudade não venha até mim. Eu não irei abrir a porta. Eu não irei dizer a palavra. Eu não irei lhe dar meu sorriso mais bonito. Nem meu olhar mais carinhoso. É que eu já estou bastante atrasada nessa despedida. Eu perdi a hora do aceno e fiquei esperando sem acreditar que o para sempre, era para sempre distantes.
Eu não irei te prometer mais nada. Não te darei meus sonhos, nem poesias. Não te pintarei nas estrelas ao anoitecer. Eu não te desenharei mais no vento. Eu não te darei mais a espera constante. Eu só te darei esse adeus, atrasado...

Final doce


Foi de açúcar e fel. Inebriou meus sentidos cada pedaço desse amor. Quisera que durasse o tempo dos astros. Quisera que as tormentas o tivessem levado em direção segura. Fonte do meu desassossego e sonho. Quem dera tivesse sido forte por mais um dia. Quem dera tivesse sido forjado da armadura dos anjos. Oh complacente amor a quem tudo eu perdoara... Fostes o mais puro e belo sentimento que a caixa da minha alma carregou, és a estrela mais brilhante do meu céu, ainda que o tempo — a ti — apagou.  


Sobre adeus sem despedida...



Quando eu tinha 8 anos o avô de uma das minhas melhores amigas faleceu e eles resolveram se mudar para longe. Outro estado, à kms de distância, e eu senti a impotência de não poder manter sempre perto alguém que amava.
Lembro que na véspera, eu estava chorando no telhado do hotel dos meus pais. (Costumava subir lá para escrever, brincar e pensar).
Nessa noite eu estava com tanta raiva, queria ficar sozinha, eu a odiava por ir embora, eu a odiava tanto!
Elisa era 3 anos mais velha que eu e sempre falava a coisa certa. As vezes eu até pensava que ela era adulta. 
Ela sentou ao meu lado e perguntou porque eu estava chorando. Falei alguma grosseria e passamos um tempo em silêncio. Até ela dizer que tinha escrito uma carta para mim.  Eu disse que não queria carta nenhuma. Que não aceitava que estivesse tão feliz por ir embora.
Então, ela abriu a carta  e começou a ler em voz alta. A carta dizia que quando ela chegou a cidade, estava bem triste, tinha sido difícil deixar os amigos, a escola... Porém, o avô já sabia que estava doente e queria morrer no lugar que nasceu e cresceu. Falou que foi um ano difícil, cheio de procedimentos médicos e medo. E as únicas coisas boas tinham sido que a casa onde ela morava era perto do hotel dos meus pais e que estudávamos na mesma escola.
Que me conhecer tinha mudado tudo. Que não ia me esquecer no caminho mesmo que o tempo passasse, falou de muitas formas o quanto eu era importante para ela e lembro como se fosse hoje, ao fim disse que sabia que não podia me levar consigo, mas me levava no coração. 
Depois de ler, pediu para eu estar às 8 em ponto no outro dia para nos despedirmos e trocarmos os endereços por escrito. Eu concordei mais animada.
O que acontece é que eu sempre tive os pais mais ocupados do mundo e eles foram para o hotel sem mim. Quando a babá me acordou já eram 10horas, eu até pedi para alguém me deixar lá antes de ir para escola, mas já não havia ninguém. Só uma casa vazia. 
Minha mãe disse que era besteira e riu porque eu não parava de chorar... Mandou eu comer tudo ir para escola. Na escola eu lia e relia a carta e pensava que nunca mais a veria. Fui até o banheiro e quando voltei a carta também tinha sumido. Só ficaram as palavras no meu coração.
Nunca mais eu soube da minha amiga de infância. Sei que ela era especial e pessoas assim só melhoram com o tempo. 
Por causa dela não consigo deixar ninguém ir embora sem me despedir. Corro para rodoviárias, aeroportos, cartas, telefonemas. Parece que em cada abraço, abraço minha amiga de infância e digo a ela:
- Eu queria ter ido! Eu queria muito! 
Confesso que cada despedida ao longo dos meus anos foi mais decepcionante que a outra. Palavras desencontradas, momentos confusos...
A verdade é que não há um jeito bom de dizer adeus a alguém. 
Eu não me despedi do meu pai, a última vez que o vi estava atrasada para escola e ele saindo dentro de uma ambulância para o hospital. Eu disse:
- Vou ficar
E ele respondeu,
-Não! Vá estudar. Vá para escola. 
E eu fui, porque achei que o veria de novo mais tarde, ou no outro dia. Contudo, foi a última vez. 
Eu queria ter ficado! Eu queria ter dito muitas coisas e me despedido... 
O que eu pude fazer foi juntar o máximo de lembranças e criar uma carta mental, para nunca esquecer.
A vida real não é como um livro com início, meio e fim. Na vida real você encontra um amigo na rua e diz:
- Ei, precisamos marcar de sair!
-Sim! Vamos marcar...
E esse dia não chega, o amigo se vai. 
Não é como nos filmes, não dá para planejar o melhor jeito de dizer adeus, porque dizer adeus sempre foi e sempre será, uma merda!
E mesmo que muitas vezes eu tenha tentado escrever a melhor despedida e saber o local exato onde por o ponto final, não funciona assim. Adeus dói. E muitas vezes só dói para um dos dois. Todas as minhas despedidas, não se comparam àquelas que não tive, pois as que não tive são histórias sem finais. 
Mesmo assim ainda corro pelos aeroportos e estações da vida com braços abertos para o adeus. E nunca saio com o coração inteiro, deve ser porque vida não permite ponto final, só reticências. Infinitos de saudade e lembranças, mal terminadas, porém com eterno significado...